<$BlogRSDURL$>

quinta-feira, março 04, 2004

A casa Farnsworth e o Mies 

Se me é permitido, gostava de me meter na discussão d'O Projecto e do Lutz sobre o Mies e a casa Farnsworth.
Assim sendo, gostaria de entrar com uma visão diferente. Apesar de concordar com maior parte do que o Lourenço escreve, penso que ele está a dar um tiro ao lado. É que não se trata de ter como objectivo o fazer de uma obra de arte. Trata-se da concretização de um conceito de habitar (ou de não o fazer), dentro do contexto histórico em que o Mies se insere. Não estou a tentar defendê-lo, apenas digo que o facto da casa ser totalmente inabitável, era sua convicta intenção.

Introduzo o contexto histórico que vem, todos sabemos, das grandes mudanças trazidas pela Revolução Industrial e pelo início da grande discussão acerca da modernidade e sobre o habitar. Nem vou entrar pelos inúmeros pontos de vista que surgiram. Tornou-se uma ideia quase generalizada, que o homem moderno não saberia habitar(1). Com um movimento de vida constante, mudanças permanentes, economia sedenta de novas conquistas, o homem moderno tornou-se naquilo que Heidegger chamou de "homem sem abrigo", aquele que já não se encontra em contacto com o seu verdadeiro ser, aquele que pelo ritmo de vida estaria em permanente movimento, aquele que já não experiência de uma forma tão aprofundada, e que, consequentemente, valoriza a eficiência e a utilidade, instrumentalizando o habitar, retirando-o desse conceito de abrigo.
Uma das perguntas mais frequentes era se habitar continuaria, de facto, a ser possivel, se este diagnostico do 'Homem sem abrigo' estivesse correcto. Mies respondeu que não. Mies assume claramente uma total indiferença para com o habitar. Ele assume esta nova 'faceta' do Homem moderno e considera-a irreversível. Ponto. A sua resposta está presente tanto na casa Farnsworth, como por exemplo no Seagram Building (em Nova Iorque). Assume que esta atitude é a maneira que a arquitectura tem de responder em relação à modernidade.

Cacciari, que partilha da mesma visão, diz: (2) (desculpem...mantenho a versão em inglês)
"As a result of the reduction of the relationship between man and world, as a result of the forgetfulness of being, poetical dwelling [habitar] has become impossible, and therefore poetic architecture has also become impossible. Real dwelling no longer exists, and authentic building has also disappeared. The only thing left over for architecture is to reveal the impossiblity of poetical dwelling through an architecture of empty signs. Only an architecture that reflects the impossibility of dwelling can still lay claim to any form of authenticity. Sublime uselessness is the highest that architecture can attain in these circumstances."

Apesar de estes textos me deixarem completamente em repulsa, a casa Farnsworth é a resposta de uma pessoa convicta naquilo em que acredita. Não é uma tentativa do artista, não é a tradução de um conceito, não se trata de paradoxo nenhum. É algo que resulta de uma visão sobre a maneira como a arquitectura deveria responder às mudanças trazidas pela modernização.

Não deixa de poder ser a pior casa do mundo. Apenas o é, segundo os nossos preceitos sobre o habitar.



(1) - "Building, Dwelling, Thinking", (incluido num conjunto de conferências de Heidegger), 1951
(2) - "Eupalinos or Architecture", Cacciari

|

Comments: Enviar um comentário

 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?