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sábado, março 27, 2004

em resposta.. 

jmac:

Tens razão. Percebi mal.
Em primeiro lugar, gostaria de te dizer que, de facto, também eu não queria provocar nenhum tipo de querela. Obviamente que o que postei tinha a intenção de provocar discussão, mas não ao ponto de ser conflituosa. Postei o 'fuck the programme?' (sem nada acrescentar como comentário) de uma forma que tentava apoiar aquilo que pensei ser a tua perplexidade em relação ao uso da palavra 'ornament' na peça referida.

Eis como o entendi:
Quando li o pequeno extracto que introduzes, o primeiro pensamento que tive foi o de ver que tratavam a obra do Ghery e Hardy como um objecto. Um ornamento, uma peça de arte pública a tocar no campo daquilo que poderá ser a escultura. No teu comentário, pensei que te referias a isto mesmo. Nem pensei que te espantavas por esta afirmação caber numa qualquer estratégia política de planeamento ou promoção. Pensei que assumias uma crítica ao facto de um teatro, uma instituição, ser tratada como objecto, como ornamento.
Nesse sentido, será de facto qualquer coisa como o 'Ornament and Crime' do Loos. O seu pensamento aparece como uma crítica clara à produção de 'designs decorativos' como os da Secessão e da Werkbund. O seu pensamento surge igualmente na defesa de um sistema que evidencia uma clara separação entre o que será arquitectura, e o que será arte, pondo-os em campos claramente distintos. Devo dizer que gosto imenso de maior parte da sua teoria e com ela me identifico.

No que diz respeito ao meu post, ele surge com a seguinte ordem de ideias: Tendo entendido o uso da palavra ornamento já referido. Tendo interpretado o teu 'susto' como sendo igual ao meu. Decidi de certa forma provocar-te mais um pequeno susto. OBVIAMENTE que acho uma tristeza este pensamento que não quer saber do programa. É precisamente deste tipo de pensamento que se formam teorias que estão na base das arquitecturas formalistas, tão características do Ghery, da maior parte dos arquitectos californianos e cada vez mais em voga. Acredito que possam existir 'espaços sem nome', mas esses estão naturalmente integrados dentro de um programa (um exemplo desses poderá ser a forma como poderás projectar uma habitação tendo alguns quartos que permitam - pela maneira como estão localizados, pela forma, pelo acesso, por seja o que for - uma transformação, uma alteração de uso. Estes 'espaços sem nome' estariam obviamente ligados a outros cuja utilização seria totalmente inflexível. Não acredito em edifícios que possam subsistir apenas como objectos. Citas Kahn e obviamente que é isso mesmo! São espaços que servirão para nada.
Digo-te mais.
Na passada terça-feira fui assistir a uma conferência do Eric Owen Moss. Um antigo desconstrutivista que agora alterou completamente o discurso (permanece formalista). Como sabes, é igualmente californiano. Esteve um tempo interminável a explicar o Marinsky theatre, em Moscovo, no qual participou no concurso. Acredita que foram duas horas a falar em forma. Três prismas que depois se contorciam, brincadeiras com sacos de plástico, aperta ali que eu aperto aqui, põe mais para a esquerda, mais para a direita..acho que assim está bem. Passou outro tempo interminável a brincar com as animações que tinha feito e perspectivas como se fosse um jogo de computador. O homem até era divertido, tinha uma pronúncia ainda com mais piada, mas de facto tenho uma definição de arquitectura bem diferente.
Era contra este tipo de argumentos que me pretendia insurgir. O brincar aos legos como se a arquitectura pudesse ser reduzida a isso.
Falando do Ghery, reconheço que ele tem invenção de espaço. Reconheço que ele tem imenso mérito na forma como conseguiu traduzir todo um pensamento para uma linguagem muito própria. Acho também a sua figura bastante caricata. Mas o que ele faz são assumidamente objectos.

A arquitectura tem obviamente uma função estética mas nunca será o seu valor primordial. Nunca esta sua função poderá ser elevada para um plano em que a obra construida deixa de servir um certo tipo de programa e um certo tipo de público para ser um produto de um ego com necessidade de reconhecimento. O 'fuck the programme' é uma tentativa de relativizar uma arquitectura completamente individualizada. Onde cada obra surge tentando absorver toda a envolvente. Onde, de repente, deixou de haver invenção para ser fogo de vista.

Relativamente ao Complexidade e Contradição, de facto é uma leitura que não cansa. Já o li, mas não me lembro de referências de maior no que concerne ao ornamento. Lembro-me, isso sim, da curiosa crítica ao Mies do "Less is a bore". No entanto, Venturi reconhece ter um desejo de simplicidade ( e não uma simplificação que será 'simplicidade pela redução') como uma satisfação para a mente. Ele refere um desejo por profundidade no pensamento arquitectónico fazendo a apologia da riqueza em significado. Essa complexidade que nos fala, não será certamente traduzida pelo número de eventos até porque finaliza o seu argumento com o óbvio, "More is not less". A sua complexidade não se traduz necessariamente na ostentação escultural das obras do Ghery.
Espero que agora, o meu post faça sentido.
Abraço

p.s.- ainda bem que achaste que a votação estava destituída de sentido. Nunca a tomei como séria! Aceita-a como um entretenimento, um fait-divers (dito à maneira do Telmo do famoso BB). No entanto, fico contente que tenhas participado. Devo dizer-te que o meu voto foi para o hARDbLOG.

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