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quarta-feira, abril 28, 2004

Transgressão na arquitectura 

"What map cuts up, the story cuts across."(1)

"Transgression does not seek to oppose one thing to another, nor does it achieve the purpose through mockery or by upsetting the solidity of foundations; it does not transform the other side of the mirror, beyond an invisible and uncrossable line, into a glittering expanse.
Transgression is neither violence in a divided world (ethical world) nor a victory over the limits (in a dialectical or revolutionary world); and exactly for this reason, its role is to measure the excessive distance that it opens at the heart of the limit and to trace the flashing line that causes the limit to arise."(2)

Esta transgressão é fantástica. Entra num campo da arquitectura que o arquitecto tão pouco conhece. Enquanto os arquitectos e urbanistas produzem imagens e cenários de edifícios e ambientes urbanos, existem comunidades dos chamados espaços residuais que produzem espaço, transgridem o espaço reinventando o público.
Chamam-se espaços residuais aos sítios marcados no mapa da Câmara para serem destruidos e requalificados. São geralmente reconhecidos como portos e linhas de comboio em desusos, barracas abandonadas, zonas industriais, lotes vazios, zonas-limite das autoestradas, locais debaixo das pontes (etc). Apesar de o termo 'espaço residual' estar claramente identificado como sujeito à requalificação, são muito poucos os estudos feitos acerca destes espaços.
O facto real é que provavelmente, nestes sítios residuais, encontraremos as réstias de espaço público existente. Sem querer ser extremamente radical, são os sem-abrigo, os vendedores de rua, os socialmente desadaptados e rejeitados que transformam e reinventam o público. Enquanto o espaço público da sociedade global vai morrendo, transformando-se em centros comerciais e de consumo, transformando a rua em local de trânsito, estes marginais e transgressores são capazes de fazer das ruas da cidade em sítios de vida e de trabalho, sítios não apenas movimento e de passagem mas um sítio onde se está, 24h por dia.
Não faço uma apologia das barracas (por exemplo) simplesmente porque acredito que as condições destas pessoas são péssimas e seus desejos são de mudança. No entanto, faço a apologia do aprender sobre estes movimentos de transgressão. Os exemplos que dei foram limitados. São estas actividades transgressivas que forçam as ruas e a cidade a encontrar espaço para o que, em projecto, rejeitam; isto é, actividade que não é de transporte.
Na vida destas pessoas poderá estar o emergir de uma nova arquitectura. Uma que se desliga da corrente tecnológica e re-descobre o espaço público. Uma arquitectura marginal e transgressiva nos termos que Foucault expõe no extracto citado em cima. Neste sentido, um âmbito geralmente rejeitado teria que ser estudado. Há muito a aprender.

1- Michel de Certeau, em The Practice of Every day Life
2- Michel Foucault, em A Preface to Transgression

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