<$BlogRSDURL$>

sexta-feira, maio 07, 2004

Crítica ou não Crítica - Parte2 

Perdoem-me o tempo que demorei a conseguir elaborar a continuação deste post. Outras coisas foram-se sobrepondo a esse raciocínio. Para o recuperar, farei um apanhado do que antes escrevi. Falei do crescente individualismo na sociedade e da influência das novas tecnologias, cada vez mais presentes na vida das pessoas. Falei de uma situação de mudança na arquitectura. Uma mudança que traz uma inerente vontade de 'matar os pais', ou seja, introduzir inovações que entram muitas vezes em directo confronto com os ensinamentos dos grandes mestres do passado. Um ardente desejo pelo novo. Sugeri nesse post, que uma das maiores diferenças estaria relacionada com a questão da Ética (escrevi Moral) e da Teoria. Pareceu-me que, mesmo estando a arquitectura já há algum tempo completamente separada da política, a grande (ou maior) diferença estaria no campo social. Ou seja, a nova geração rejeita a intervenção social. Chamei esta intervenção de Utopia. Dentro deste contexto, a arquitectura para sobreviver, teria as suas bases na mediatização. A forma, o objecto passou a estar no primeiro plano do acto de construir. A minha questão centrava-se basicamente na impossibilidade de, nestes termos, se estabelecer uma crítica. Como se faz a crítica da forma?

Lourenço, eu também não acredito em revoluções sociais. Não acredito, nem desejo. A Utopia que falo é apenas um desejo de não excluir o social do acto de projectar. Tentando novamente esclarecer minhas ideias: eu não sou contra a forma! Acho importantíssimo a imagem. Tenho imensos tiques formalistas. O que me preocupa é que se reduza a arquitectura a apenas isso. Um fragmento, uma imagem. Porque é disso que se trata! Trata-se de fazer um objecto e enfiar programa lá dentro. Trata-se de uma declaração em que o contexto é indiferente porque o mundo é uma aldeia. Aliás, o Koolhaas tem um texto bem esclarecedor (que eu tentei encontrar mas não consegui), entitulado 'Fuck the context'.

Todo este tipo de atitudes são muito pouco construtivas. A arquitectura nunca poderá ser feita como um acto individualizante. Quando o faz, desgraça-se e desfaz-se. O objecto arquitectónico nunca poderá ser algo isolado mas sempre dentro de um contexto urbano. A arquitectura nunca poderá assumir uma atitude des-responsabilizante porque estas atitudes têm repercussões na maneira de viver de uma cidade. A nova geração assenta suas bases em noções profundamente diferentes acerca de tempo e espaço; anula por completo algumas bases Vitruvianas em relação à duração e estabilidade, assim como o bem conhecido genius loci. É pura arquitectura nihilista de negação.

Parece-me que o objectivo de trazer a arquitectura (e as artes em geral) para a ribalta está a tomar caminhos errados. Assume-se uma escala muito global. Perde-se o objectivo de desenhar para pessoas com nomes e caras concretas. Os edifícios são vazios de conteúdo porque simplesmente assumem que as pessoas não 'atingem' esse conteúdo (ou muito simplesmente não estão interessadas). Para mim, perde-se a lucidez na investigação da arquitectura. Deixa de haver lugar para a ilusão. Deixa de haver lugar para a magia de um detalhe. Os espaços são vazios. Perde-se o Espírito. Faz-se tudo a partir de um consumo pela imagem. Este vazio é conhecido e aceitado:

"Junkspace is the sum total of our current achievement; we have built more than all previous generations together, but somehow we do not register on the same scales. (...)According to the new gospel of ugliness, there is already more Junkspace under construction in the 21st century than survived from the 20th...It was a mistake to invent modern architecture for the 20th century; (...) Junkspace seems an aberration, but it is essence, the main thing(...). It replaces hierarchy with accumulation, composition with addition. More and more, more is more. Junkspace is like being condemned to a perpetual Jacuzzi with millions of your best friends..."(1)

É dentro deste contexto e desta evolução que insisto na pergunta: Haverá espaço para a crítica? Estando tão longe das pessoas, a arquitectura tenta abarcar o mundo. A globalização o permite. Arquitectura Bio-climática; auto-sustentável e outras coisas do género - estará aqui o único desejo pelo social? Continuo a afirmar que continua imensamente longe das pessoas. Não atinge a ninguém porque voa muito alto. As Utopias surgem apenas inseridas dentro de um contexto ecológico. O maior exemplo é o da PigCity dos MVRDV em que se debatem com estas problemáticas e elaboram um esquema de cidade auto-suficiente. Na apresentação, usam porcos (ao invés de pessoas, julgo eu). O pensar da cidade e da arquitectura serve de igual maneira para os dois casos. É este o nível de profundidade inerente.

O formalismo puro, simples e único...deita fora a possibilidade de haver qualquer tipo de discussão. Pelo menos uma discussão relacionada com os conteúdos que a arquitectura, a meu ver, deveria manter.

"In a world that incessantly consumes images, in a constantly expanding metropolitan culture, in a universe whose buildings are no more than a few of the infinite number of figurative and informative dwellings that surround us, there nonetheless exists architectonic event. The event is like an extended chord, like an intensity at an energetic crux of streams of communication, a subjective apprehension offered by the architect in the joy of producing a polyphonic instant in the heart of the chaotic metropolis." (2)

1- Rem Koolhaas, em junk-space
2- Ignasi de Solà-Morales em Place: Permanence or Production

|

Comments: Enviar um comentário

 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?