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terça-feira, junho 08, 2004

Adeus Delft (1) 

Vou retomar o diário da despedida. Um apontar de alguns dos melhores momentos deste ano. Uma tentativa de ir arrumando a mente antes de ter que literalmente arrumar a casa. E partir.

Lembro-me do primeiro mês. Ao contrário do que o M'A dizia no seu mail no post em baixo, meus primeiros tempos foram qualquer coisa como: "O que é que eu estou a fazer aqui!?!?!". Despedi-me de Lisboa ao melhor estilo. Grande jantar no final de Agosto, onde toda a gente apareceu. Sim...vou dizer...sou especial! Tenho dos melhores amigos que se pode ter. Tive gente que veio do Algarve e uma amiga especial que veio da Madeira. Após me ter sido esparrapachado na cara o quanto sou feliz em Lisboa, apanho o avião e venho para a chuva de Delft. Deprimidissimo. Miseravel. O primeiro mês foi uma luta. Ainda a recuperar do que tinha deixado, fui-me deixando levar num contínuo abandono de mim mesmo no lar. Encontrei aquilo que desconhecia. Encontrei, aquilo que chamam de solidão. Horrível sensação de sufoco sem que nos deixe de faltar a respiração. Uma revolta por não me sentir em mim. Por, estupidamente, sem apoios já não ser capaz de estruturar nada.

Há-que enquadrar. Sou um filhinho da mamã que sempre teve quem lhe fizesse comida e quem lhe lavasse a roupa. Sempre tive onde me apoiar em quase tudo. Desta vez, vinha com a vontade de me apoiar unicamente no meu refugio de sempre. Deus. Fui engolido e fracassei. Tive que ir aprendendo, aos poucos, e numa lingua estranha.
Olhando agora, recuperando algumas das orações que tenho da altura, penso que nunca cheguei a tamanha profundidade. Em momento algum estive tão próximo de Deus sem me aperceber disso. Descobri muitas coisas nessa altura. Conheci outra parte de mim. Quero-vos dizer (ou lembrar) que sou daquelas pessoas que sempre achou que se conhecia imensamente bem, e que não teria, nesse aspecto, nada a aprender. Óbvio, estava enganado.

O ambiente erasmus fazia-se sentir aos poucos. Fui conhecendo gente. O horário de aulas é quase nulo. Maior parte é trabalho individual e em casa. Na residência tudo é Holandês e até hoje, ainda não vi o homenzinho (ou mulherzinha) que mora no quarto imediatamente ao lado. Só sei que toca piano. Mal. De resto, são só teorias e conspirações minhas. A entrada da residência é um corropio de entradas e saídas onde podes ficar parado durante umas horas sem que ninguém te cumprimente. Toda a gente é transparente. Vim do paraíso e caí de paraquedas naquilo que eu pensava ser o reino do individualismo e da falta de sentido de comunidade. Podes fazer o que quiseres porque está-se tudo a cagar para o que fazes. Tudo, de resto era desconhecido e lembro-me que um dos meus maiores desejos era começar a ter rotina de algo. Uma rotina. Algo que pudesse juntar ao pacote 'coisas conhecidas'.
Estou, intencionalmente, a pintar um quadro bastante negativo deste primeiro mês. Lembro-me dele assim. Hoje, sinto que valeu a pena. Aprendi imenso. A sério. E aprendi dos maiores mistérios que podem existir no que toca ao compreender a dor. Porque a saudade apertava tanto que chegava a doer.
Ia, obviamente, conhecendo pessoas. Ia, obviamente às afamadas festas erasmus. Mas há algo nestas coisas que envolvem excessos de tudo que, sinceramente, pouco me atraem. Saio de lá sempre vazio. E com a impressão que pouco consegui falar com as pessoas. É engraçado. Conhece-se as pessoas noutros ambientes. Há loucuras que são feitas de vez em quando. Mas é como a pastilha elástica. Passado algum tempo, deixou de saber a morango (ou seja lá o que for).

Lembro-me que a primeira grande viragem do ano foi uma visita de uns amigos meus. Faziam inter-rail e fizeram o desvio para passar por Delft. Ficavam só um dia. Fui buscá-los à estação. Grande felicidade..não os tinha visto ainda naquele verão (era finais de setembro). A transformação deu-se na forma de um abraço. Simples. Com força. E de real saudade. De repente parei. Reparei que de facto, existia algo de novo. É que fazia um mês que já não abraçava ninguém. As pessoas cá, se não as conheceres bem, não cumprimentas. Não tocas, não apertas mão, não nada. Apenas entre os erasmus havia alguns cumprimentos mas não passavam daqueles gestos rotineiros de quem estende a mão por simpatia. O abraço foi algo totalmente diferente. Porque recolhes alguém em ti. Porque é todo um gesto capaz de significar o poder de uma amizade.
Sei que passei o dia em extase. com uma alegria imensa de poder falar português. A rir de 5 em 5 minutos pelos palavrões em português que iam surgindo. Que saudades! Que momento! Parecia que estavamos deslocados de sítio. Entregues no mundo e agarrados à felicidade de neste dia podermos estar juntos.
Vê-los partir foi difícil. Mas o perceber que existe muitas mais mãos que nos tentam agarrar quando estamos mais longe, foi de facto, fundamental. E perceber que tinha de acordar daquele mês de lamentações e de pura saudade. Acordar. Largar Lisboa definitivamente e aprender a disfrutar Delft. Ter a certeza, que para ser o melhor ano da minha vida, tinha que o fazer render.

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