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domingo, junho 13, 2004

Das Neue Frankfurt 

O Movimento Moderno atingiu a dimensão que pretendia em Frankfurt. Ernst May, uma das figuras principais dos CIAM nos anos iniciais, seria o precursor para uma série de experiências ao nível da habitação e planeamento da cidade.
Não interessa falar agora de situações específicas de Frankfurt, e entrar em grandes detalhes sobre os projectos (até porque não sei). Frankfurt veio tornar-se o alvo do orgulho dos senhores do Movimento. Tinham em mãos projectos de grande escala. Poder-se-ia começar a desenhar aquilo que Gideon tanto ambicionava no seu 'Space, Time and Architecture': uma nova unidade. Interessante será constatar a realidade crua da distância que vai dos argumentos ao projecto e obra construida.

Gideon bem pode ser considerado o 'escritor sombra' do Movimento. Foi dos protagonistas dos encontros e a partir dos seus escritos foi possível encarar o Movimento como um todo. Falou de um novo conceito de espaço-tempo que se baseava no fascínio pelo ferro e vidro. Esse potencial de transparência que anulava as diferenças entre 'dentro' e 'fora'. O exterior e o interior estariam em constante relação. Esta interpenetração verificar-se-ia a várias escalas. Volumes bem definidos; relações entre espaços por momentos em que o chão desaparece; interpenetração de volumes equivalentes. A arquitectura deixava de ser definida por fachadas representativas e volumes grandiosos para se basear em novas relações trazidas por uma nova lógica estrutural. Aqui, dizia ele, nesta nova percepção de espaço e tempo, estaria a unidade escondida e tanto procurada numa época de tamanha turbulência.

A aplicação de May, baseada num extremo racionalismo e funcionalismo, tentava antecipar a sociedade futura. As necessidades exigiam respostas adequadas. A vontade impunha uma nova e unificada cultura. Uma cultura de liberdade, de abertura, de pureza. Era isto o Existenzminimum. A arquitectura procurava a simplicidade, o chegar à essência. A essência neste caso, era a função. O Existenzminimum assumia-se assim como um novo ideal estético aliado a principios projectuais. A nova cultura seria racionalmente organizada e agradavelmente livre de conflitos.

Não se percebe, obviamente, a ingenuidade destas pessoas. Suas intenções estavam intrinsecamente ligadas à promoção da liberdade de cada indivíduo, criando ao mesmo tempo o maior potencial possivel para desenvolvimento. Neste contexto, é dificilmente lógico assumir que cada um destes indivíduos iriam fazer as mesmas escolhas e iam mudar de maneiras semelhantes. Era isto, no entanto, que estava por trás do caracter homogéneo do novo público metropolitano.

Não quero obviamente bater no ceguinho. São bem conhecidas as falhadas aplicações do Movimento Moderno. Há, no entanto, uma quantidade de coisas que para mim não ligam. Como promover uma cultura altamente racionalizável se aquilo que se pretendia exponenciar era exactamente o irracional e o subjectivo? Como se estabelecem regras para a liberdade? Nem está em causa a ingenuidade de pensar que a arquitectura seria capaz de trazer uma nova liberdade, ou mesmo de iniciar um processo de reforma da sociedade. O que está em causa é a maneira como os escritos foram aplicados. A total falta de lógica entre aquilo em que se acreditava e a concretização.

Frankfurt é apenas o exemplo mais visível.
Por outro lado, a arquitectura de Niemeyer, foi capaz de criar uma genuina arquitectura brasileira. Note-se, no entanto, que isto acontece numa fase pré-Brasilia. Com um orçamento grande e escalas desmedidas, os seus projectos não atingem a glória que se distingue nos seus projectos 'mais pequenos'. Niemeyer é provavelmente aquele que dos escritos de liberdade consegue traduzir de melhor forma. Não tem (nem de longe) a profundidade e a significação que tem, por exemplo Le Corbusier, mas a sua poética voadora e aparentemente irracional atinge um sentido bem mais libertador.

Digo, no entanto, que prefiro muito mais uma teoria com aplicação falhada do que uma qualquer coisa sem passado, convicção, e direcção. Ou quente, ou frio. Morninho é que não!

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